O planeta GJ 1132b, um outro Vênus (mais ou menos) perto de nós

Novo mundo rochoso tem uma atmosfera, o que é um avanço em direção a um grande sonho: a detecção, nas atmosferas de planetas extra-solares, de moléculas produzidas por processos biológicos. Há vida fora da Terra, ou o nosso planeta é mesmo único no Universo?

Imagem artística do planeta GJ 1132b (em primeiro plano) e da sua estrela (ao centro).

Os planetas cuja existência está confirmada em redor de outras estrelas, além do Sol, rondam já os 2000. Uma equipa internacional de cientistas, onde se incluem dois portugueses, descobriu agora um planeta extra-solar, ou exoplaneta, que se distingue dos demais: é rochoso, tem uma atmosfera e encontra-se perto de nós, ou praticamente, já que estar a 39 anos-luz de distância é, astronomicamente falando, aqui ao lado.

Apresentemos este novo mundo rochoso revelado na edição desta quinta-feira da revista Nature: chama-se GJ 1132b, orbita uma anã vermelha, uma classe de estrelas mais pequenas do que o Sol, é rochoso como Mercúrio, Vénus ou a Terra, e não é muito maior do que o nosso planeta. Tem 1,6 vezes a massa da Terra e 1,2 vezes o seu diâmetro. E, sobretudo, é o primeiro planeta rochoso em que se detecta uma atmosfera, ao fim de 20 anos de descobertas de planetas extra-solares, desde Outubro de 1995.

O planeta GJ 1132b começou por ser descoberto com o método dos trânsitos, que detecta pequenas diminuições na luz de uma estrela quando um planeta passa à sua frente. Estes micro-eclipses regulares denunciam a presença desse planeta (uma vez que não brilha como uma estrela) e permitem determinar o seu diâmetro. Essas primeiras observações com telescópios robóticos no Observatório Inter-Americano do Monte Tololo (no Chile) — no âmbito de um projecto que observa anãs vermelhas, as estrelas mais comuns na nossa galáxia, até 100 anos-luz de distância à procura de planetas semelhantes à Terra — e, em seguida, foram confirmadas noutros telescópios.

Mais tarde, a equipa determinou a massa do planeta usando outro método de detecção de exoplanetas, o das velocidades radiais, que mede pequenas variações periódicas na velocidade de uma estrela, que ora se afasta ligeiramente de nós, ora se aproxima, devido à atracção gravítica que um planeta também exerce sobre ela. Estes pequenos puxões gravitacionais provocados por esse planeta permitem determinar a sua massa e, em conjunto com o diâmetro, é possível calcular a densidade. A partir daqui, é possível dizer qual é a sua composição — se é gasosa, como Júpiter e Saturno, ou rochosa, como se concluiu no caso do GJ 1132b.

Neste planeta, um ano só dura 1,6 dias, o tempo de completar uma volta à anã vermelha. Tal significa que está só a 2,2 milhões de quilómetros da estrela, o que é muito perto, se olharmos para Mercúrio, o planeta do nosso sistema solar mais próximo do Sol e que, ainda assim, dista dele 55 milhões de quilómetros.

Ora esta proximidade entre o planeta GJ 1132b e a anã vermelha torna este planeta quente de mais para ter água líquida a escorrer na sua superfície rochosa, onde, quem sabe, talvez encontrássemos montanhas e vales. Mas, ao mesmo tempo, ele já não é quente de mais para ter uma atmosfera — como Vénus, julga a equipa —, porque a sua anã vermelha tem só 20% do tamanho do Sol. “Por isso, calcula-se que a temperatura do planeta estará apenas entre 135 e 305 graus Celsius. Esta temperatura é muito mais baixa do que a de qualquer outro exoplaneta rochoso conhecido”, frisa um comunicado do Instituto de Astrofísica e Ciências do Espaço (IA), em Lisboa e no Porto, a que pertence Nuno Santos, um dos autores do artigo na Nature (o outro português que assina este trabalho é Vasco Neves, agora a trabalhar no Brasil).

Este não é, porém, o exoplaneta rochoso mais próximo da Terra: esse estatuto, pelo menos por ora, é do HD219134, a 21 anos-luz de distância, e cuja descoberta foi anunciada em Julho, por uma equipa de que faz parte Pedro Figueira, do IA. “Tem 1,6 vezes o diâmetro e 4,4 vezes a massa da Terra. No entanto, a sua temperatura deve rondar os 700 graus Celsius, ou seja, é demasiado quente para que possa existir qualquer atmosfera”, diz-nos Ricardo Cardoso Reis, do gabinete de comunicação de ciência do IA. “Até agora, todas as medições de atmosferas de exoplanetas foram apenas em gigantes, como exoJúpiteres ou exoNeptunos, e que estão muito próximos das suas estrelas. Devido a essa proximidade, a atmosfera do planeta é aquecida e expande-se, por isso a quantidade de luz que a atravessa é maior e é relativamente mais fácil de detectar [usando o método dos trânsitos].”

Fonte: Público

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